Agressividade

03/11/2017

Existem diversas confusões relativamente à agressividade canina, nomeadamente relativamente a confusões com termos como maldade, dominância, e desobediência.

Segundo o dicionário português, a agressividade traduz a tendência para atacar ou provocar e representa uma forma de desequilíbrio psíquico que se traduz por uma hostilidade permanente diante de outrem.

Desta forma é agressivo todo o animal que se encontra num estado emocional ou cognitivo que possa originar uma maior probabilidade de manifestar comportamentos agressivos.

Embora possa parecer controverso, a agressividade pode ser bastante importante para a sobrevivência do cão (ou mais propriamente do seu antepassado o lobo) quando este se encontra na natureza, nomeadamente para a obtenção de alimento, acasalamento e de território. O problema é que hoje em dia, os cães partilham connosco o mesmo território e essa agressividade nunca deve ser revelada contra os tutores ou outros animais.

Na sua matilha humana, os cães veem os seres humanos como membros da matilha e eles próprios tentam estabelecer o seu lugar na hierarquia desafiando assim os membros da família mais submissos, e que normalmente são as crianças.

Devido aos problemas que podem advir de ter um cão que apresente comportamentos agressivos para com os elementos da família esses cães são muitas vezes abandonados. A saber, a agressividade é um dos principais motivos para a entrega para adoção ou abandono dos animais.

O controlo deste problema é bastante importante e deve ser modificado/ controlado o mais breve possível ao longo das primeiras etapas de desenvolvimento do cão, nomeadamente durante as primeiras socializações, uma vez que o processo de desenvolvimento do cão durante estas diferentes fases pode ter alguma influência ao nível da agressividade.

Assim sendo, para saber exatamente quando e como intervir é importante conhecer as fases de desenvolvimento do cão. A figura seguinte apresenta um organigrama das oito fases de desenvolvimento mais importantes do cão.

Fase 1 - Período neonatal - 0 a 2 semanas

Durante este período o cachorro é completamente dependente da sua progenitora uma vez que nasce cego, surdo, sem dentes e sem possibilidades de controlo da temperatura corporal e de se deslocarem de forma coordenada. A única função minimamente desenvolvida é o faro, que é usado para buscar a sua progenitora. Sobre a progenitora recaem as funções de amamentar o pequeno cachorro mas também a estimulação fisiológica para a defecação e urina.

Fase 2 - Período de transição - 2 a 4 semanas

Durante este período o cachorro começa a ser capaz de abrir os olhos sendo que a visão se encontra totalmente desenvolvida unicamente a partir da 5ª semana. A audição começa a desenvolver-se e normalmente entre a 3ª e a 4ª semana começam a aparecer os primeiros dentes. Nesta altura os cachorros começam a aprender o básico do comportamento canino. Durante esta fase o cachorro começa a demonstrar um pouco do seu temperamento nomeadamente através da sua apetência para brincar. É nesta fase que começam a aparecer as primeiras vocalizações.

Embora ainda bastante dependentes da sua progenitora, nomeadamente para a sua alimentação, nesta fase o cachorro já é capaz de defecar e urinar sem qualquer estímulo materno. Para que o cachorro se desenvolva adequadamente é bastante importe que durante esta fase este esteja rodeado de tranquilidade e segurança-

Fase 3 - Período de socialização - 4 a 12 semanas

Esta é uma das fases mais importante da vida e do desenvolvimento social do cachorro. Sempre em contacto com a sua progenitora nesta fase, esta ensina-lhe de forma mais profunda a "etiqueta social canina". O contacto com os irmãos é também bastante importante.

Por estas razões, durante esta fase o cão deve ser mantido junto da sua mãe e/ou restantes irmãos. Assim o cachorro poderá aprender o básico da higiene, hierarquia e disciplina.

Por outro lado, a partir da quarta semana a produção de leite materno começa a reduzir, entrando então o cachorro no processo de desmame e nomeadamente onde será feita a introdução à ração.

A partir da 7ª semana o cachorro pode ser introduzido à sua nova família humana e nomeadamente ao máximo possível de estímulos que estarão presentes na sua vida.

A fase entre a 7ª e 12ª semana é considerada a fase de "imprinting" canino. Todas as experiências vividas durante esta fase, quer sejam positivas ou negativas, tem tendência a se fixarem no cachorro de forma mais profunda e duradoura e nomeadamente ter uma influencia importante no comportamento posterior do cachorro.

Fase 4 - Primeiro período do medo - 8 a 11 semanas

Esta fase sobrepõem-se ligeiramente à fase de socialização e é uma fase bastante critica no processo de desenvolvimento canino. Durante esta fase qualquer experiência traumatizante, dolorosa ou altamente negativa vai ter um impacto mais profundo e duradouro que em qualquer outra fase.

Por estas razões, durante esta fase, o cão não deve ser exposto a experiencias possivelmente traumatizantes.

Fase 5 - Período sénior - 12 a 16 semanas

Durante esta fase o cachorro começa a se tornar mais independente. Nesta fase, através das brincadeiras o cachorro começa a testar os limites e nomeadamente a sua posição hierárquica através de jogos de dominância.

O estimulo intelectual do cachorro durante esta fase é bastante importante, de forma a estruturar o seu comportamento.

Fase 6 - Período de instinto voador - 4 a 8 meses

O nome desta fase descreve bem o comportamento do cachorro entre os 4 e os 8 meses uma vez que é durante esta fase que o cachorro decide partir à descoberta do mundo que o rodeia de forma mais independente. O cão durante esta fase sofre de uma espécie de "surdez seletiva", ou seja, de forma um pouco irreverente o cão começa a comportar-se como se fosse o total senhor do seu nariz e muitas vezes testa o seu tutor, por exemplo não vindo quando é chamado.

É bastante importante que os donos saibam gerir esta fase, recompensando bastante cada vez que o cão tem um comportamento desejado.

Fase 7 - Período de adolescente - 6 a 18 meses

Segundo a raça do seu cão, neste estágio ele pode já ser considerado como adulto. No entanto o cão encontra-se ainda em desenvolvimento. Por isso mesmo, durante esta fase ainda podem ocorrer alguns comportamentos de teste e/ou de dominância para estabelecer uma posição mais elevada na hierarquia da "matilha".

Nesta fase o cão começa a atingir a sua maturidade sexual, podendo ser mais evidente a marcação de território (no caso dos machos) e o aparecimento do cio (nas fêmeas).

Esta fase é muito importante e depende em grande parte daquilo que foi feito durante a fase de socialização para que o despertar hormonal não desencadeei comportamentos de agressividade para com outros animais.

Fase 8 - Segundo período do medo - 6 a 14 meses

Tal como o primeiro período do medo que ocorre entre as 8 e as 11 semanas, o segundo período do medo representa uma fase onde o cão tem uma predisposição para se sentir ameaçado pelas coisas mais diversas e sem razões aparentes para tal.

É importante que o cão se sinta num ambiente seguro e que já tenha construído uma boa relação com o seu tutor de forma a se apoiar neste quando se sentir ameaçado por algo.

Nesta fase os cães podem parecer relutantes a experimentarem novos estímulos ou se sentirem inquietos com alguns já conhecidos.


A compreensão das fases de desenvolvimento canino podem ajudar a compreender e a evitar o desenvolvimento de problemas ligados à agressividade. No entanto, e tal como foi descrito nas fases de desenvolvimento do cão, o cão não vive fechado sobre si mesmo.

Neste sentido podemos identificar alguns fatores que podem contribuir para que o cão desenvolva um comportamento ou uma resposta agressiva:

  • O meio ambiente
  • A falta de socialização
  • O excesso de punições
  • O isolamento e/ ou acorrentamento
  • A exposição frequente a situações de stress.
  • Factores genéticos

Todo o comportamento deriva de um estímulo, uma informação ambiental externa ou uma modificação do estado psicológico de um individuo. Este estímulo é chamado de "trigger".

A agressividade pode ser dividida em quatro fases:

  • Fase 1 ou de começo: é a fase onde são visíveis os primeiros índices da ação e que manifesta as motivações do cão relativamente à ação agressiva.
  • Fase 2 ou fase operante: esta fase permite agir sobre si mesmo ou sobre o ambiente que o rodeia com o objetivo de restabelecer o equilíbrio emocional do cão.
  • Fase 3 ou fase de fim: esta fase corresponde à satisfação ligada ao comportamento desenvolvido e correspondentemente o regresso ao equilíbrio emocional do cão.
  • Fase 4 ou fase de refratária: corresponde à fase onde o comportamento não se volta a verificar devido ao regresso ao equilíbrio emocional do cão. Nesta fase o cão volta a ser sensível aos estímulos exteriores alheios aos motivos da sua resposta agressiva e que estavam anteriormente bloqueados.

Assim sendo, desta mesma forma o comportamento/ resposta agressiva pode também ser dividido em 4 fases:

  • Fase 1 ou de início: geralmente nesta fase acontece um revelar das possíveis intenções do cão, nomeadamente a ameaça, intimidação ou as suas emoções nomeadamente o medo, desafio, entre outros:
  • Fase 2 ou de ação: esta fase permite concretizar as intenções reveladas na fase precedente e por consequência acalmar as suas emoções.
  • Fase 3 ou de fim: marca o final das demonstrações de hostilidade e consequentemente o apaziguamento das suas emoções e o regresso à tranquilidade.
  • Fase 4 ou refratária: fase onde a reação agressiva deixa de se revelar.
Vejamos alguns tipos de agressão tipo:

Diferentes tipos de comportamentos agressivos: medo, dominância, posse, etc

Agressividade como resposta a um medo:

A agressividade como resposta a medos é bastante frequente podendo até mesmo ser considerada um dos tipos mais complicados e imprevisíveis de agressividade.

O sentimento de medo é algo bastante delicado a gerir. Quando um cão se sente ameaçado por algo existem três comportamentos que pode adotar: apresentação de sinais de apaziguamento (calming signals), tentativa de fuga e por último uma resposta agressiva.

Agressividade por dominância:

Para compreender este vertente da agressividade canina devemos recuar até à natureza básica do cão, ou seja, a sua organização social. Os cães são organizados em matilhas altamente organizadas e onde existe uma hierarquia bem definida.

Na natureza, nos seus primos os lobos, o topo dessa hierarquia é ocupado pelo macho dominante (ou alfa) que se comporta como o "chefe" da matilha. Por vezes, para manter essa mesma hierarquia e a harmonia no seio da matilha o macho líder necessita de recorrer à agressividade para com os membros que ocupam uma posição mais baixa na hierarquia e assim imporem a sua vontade.

Quando estamos a falar do cão domestico, essa posição de macho dominante deve ser ocupada pelo tutor. Quando isso não acontece pode-se verificar um desafio por parte do cão relativamente ao tutor.

Agressividade por posse ou território

Tal como no caso anterior este caso pode estar ligado á posição que o cão pensa ocupar na matilha humana. Um exemplo clássico é a agressividade mostrada pelo animal aquando alguém lhe tenta retirar um brinquedo. O cão, assumindo uma postura de posse, admite que o objeto lhe pertence e como tal reage com agressividade perante quem lho vai retirar.

Por exemplo na natureza, os cão como animais de matilha (gregários) são obrigados a estabelecerem territórios de caça de forma a subsistirem e que tem que o defender perante possíveis adversários ou perigos.

A que se deve prestar atenção de forma a identificar possíveis posturas agressivas?

Existem dois grupos de informações que devem ser tidos em conta, o posicionamento e altura do corpo, das orelhas e da cauda; e também os sinais de apaziguamento como a fuga do olhar, da cabeça e do corpo.

Como eliminar a agressividade canina?

E necessário compreender que na realidade não se trata o comportamento agressivo, mas sim o cão que o apresenta com um ou diversos tipos de comportamentos agressivos dentro de um determinado contexto.

Em primeiro lugar é bastante importante que os tutores identifiquem corretamente as causas da agressividade revelada pelo cão uma vez que por vezes pode não ser evidente. Nesse sentido pode ser necessário por vezes de recorrer adestradores credenciados ou comportamentalistas.

Para a eliminação da agressividade canina a educação é fundamental, bem como a imposição de regras e nomeadamente de uma hierarquia, sabendo que o único que nunca mordera é o cão de brincar...