O lobo, o cão e a sua incrível evolução

10/11/2019

Que os cães de hoje derivam do seu ancestral o lobo já todos sabemos, mas a grande pergunta é o que é que resta do lobo selvagem nos nossos amigos de quatro patas? Adicionalmente temos que nos perguntar como é que os cães se foram adaptando aos novos modos de vida e às exigências das diferentes sociedades? Este artigo pretende dar resposta a estas e outras perguntar fazendo uma avaliação dos hábitos do lobo e do cão ancestral e às estratégias de adaptação que estes adotaram para se tornarem os grandes companheiros dos dias de hoje.

Antigamente acreditava-se que os cães atuais derivavam essencialmente de duas populações de lobos distintas separadas por milhares de quilómetros. No entanto, mas mais recentemente um estudo de Krishna Veeramah (https://www.nature.com/articles/ncomms16082) afirma que a origem dos cães atuais é a mesma e mais precisamente proveniente de uma única população de lobos europeus.

Como foi feita a domesticação?

Atualmente acredita-se que a domesticação do lobo, ou do cão ancestral ocorreu entre 36000 e 20000 anos sendo que foi uma domesticação bem mais lenta do que a que se passou com os animais de quinta como as vacas ou os porcos.

Acredita-se que a aproximação entre lobos e humanos foi feita de forma progressiva sendo que a teoria vigente atualmente e difundida pelo especialista Konrad Lorenz diz que esta aproximação foi feita muito à força das adoções de filhotes que eram separados da sua progenitora ainda em bebes (impregnação). Os nossos antepassados humanos descobriram que a integração do lobo na "matilha humana" apenas era possível se fosse feita até às primeiras 4 semanas de vida da cria, ou seja, numa fase onde o bebe lobo ainda é cego e surgo.

Depois desse período a sua integração entre os humanos é bem mais complicada, uma vez que os lobos tendem preferencialmente a se afastar dos humanos, característica essa que foi alterada ao longo dos anos nos nossos amigos cães e que corresponde também a uma das grandes diferenças entre lobos e cães.

Os cães normalmente juntam-se em grupos mais numerosos que os lobos e estão também mais predispostos a conviver com humanos sendo que apresentam um comportamento sexual promiscuo onde crias e progenitores podem acasalar. Os lobos por seu turno vivem em alcateias mais pequenas, formadas por menos membros, geralmente consanguíneos, normalmente pai e mãe lobo e crias até aos dois anos. Ao contrário dos cães, os lobos são pouco ou nada promíscuos uma vez que aquando da maturidade sexual, as crias de lobo deixam a matilha em busca de um parceiro.

Dados recentes mostrarem também que a repartição geográfica dos lobos esteve relacionada com as primeiras migrações humanas uma vez que se encontraram em diversos continentes restos mortais de cães primitivos que datam de certa de 6000 a 10000 anos atrás sendo aproximadamente o mesmo período das migrações dos primeiros homens, facto este que corrobora a teoria de uma aproximação lenta entre humanos e lobos.

Acredita-se que inicialmente os lobos terão vivido em regiões periféricas dos acampamentos alimentando-se dos restos e dos desperdícios humanos e apenas mais tarde vieram a integrar os acampamentos.

Mas porquê domesticar o lobo?

Uma das primeiras razões para a domesticação do lobo foi a caça. Inicialmente crê-se que o lobo seria uma das presas do homem ancestral servindo de alimento para as famílias da época. Esta tradição atualmente é observada em diversos países da Asia Oriental como por exemplo a China, Coreia ou Vietnam. Nestes países, para além da pobreza e escassez de alimentos como a carne existem também algumas tradições ancestrais onde se acredita que comer este tipo de animais traz alguns benefícios para a saúde. No entanto com o passar do tempo, o homem compreendeu que poderia ter mais vantagens, inclusive na caça, se trabalhasse em parceria com o lobo ao invés de o caçar.

Acredita-se então que neste segundo período o lobo trabalharia como parceiro dos humanos na suas caçadas uma vez que o tipo de presas que o lobo caça por natureza são as mesmas de que os humanos se alimentavam.

Com esta parceria o homem começou também a observar e a imitar algumas técnicas de caça usados pelo lobo sendo que assim estabelecida a primeira relação de cooperação entre ambos.

A que se pareciam os primeiros cães domésticos?

Segundo a especialista americana Krishna Veeramah do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Stony Brook, os primeiros cães domésticos eram muito semelhantes aos cães de rua que podemos encontrar ainda hoje na Índia, nas Antilhas, na América do Sul ou mesmo nas ilhas do Pacífico. Este facto deve-se essencialmente ao facto destes cães se multiplicavam livremente entre eles e dessa forma originarem populações muito homogéneas e bastante semelhantes entre elas.

A mão do homem e a selecção das raças modernas

Os cães foram progressivamente selecionados pelo homem pelas suas aptidões, características físicas, características psicológicas e também conforme a sua utilidade (ex.: a caça, a guarda ou simplesmente cães de companhia).

A partir da idade média observou-se um aumento da diversidade das raças de cães, sendo que esse aumento ganhou mais expressão a partir do século XX. Nessa época os criadores aperceberam-se que para aumentar a probabilidade de obter cães com uma determinada característica bastava cruza-los com cães com essa mesma característica. Ou seja, para obter um determinado tipo de pêlo, tamanho, comportamento bastava cruzar um macho e uma fêmea que apresentassem esse mesmo parâmetro desejável. Nesse sentido, e de forma a acentuar rapidamente o carácter desejado os criadores realizaram cruzamentos entre indivíduos do mesmo parentesco ou parentesco próximo essencialmente devido ao facto de existirem poucos reprodutores. Este processo de seleção artificial pode originar diversos problemas. Esses problemas serão discutidos mais à frente na secção: "Os perigos da seleção artificial feita pelo homem".

No entanto existem raças menos "modificadas" que outras como é o exemplo dos Husky que já existiam à 2000 anos atrás (embora a lenda diga que são descendentes do amor entre um lobo e a lua), o Galgo Afegão, o Galgo Persa, o Saluki originário do Egipto, o Shar-Pei e o Pequinês originários da China ou o Samoiedo e o Malamute provenientes da Sibéria.

O que resta dos lobos nos nossos cães?

Para responder a esta questão temos que fazer uma divisão e observar diversos critérios separadamente. Nesse sentido vamos considerar fatores genéticos, físicos, de comportamento e a comunicação distinta utilizada quer pelos nossos cães quer pelos lobos.

Genética:

Do ponto de vista genético a diferença entre o lobo e o cão dos nossos dias é muito pequena, cerca de 0,2% de diferença. A título de comparação, entre o coiote e o cão a diferença é de 4% e entre o homem e o chipanzé é de 2%. Estes números corroboram e mostram bem a ligeira diferença genética entre cães e lobos.

Os biologistas consideram que o cão (canis domesticus) é uma subespécie do lobo (canis lupus) uma vez que são bastante próximos e por isso existe a possibilidade de cruzamentos entre ambos. Um exemplo disso é o Cão Lobo Checoslovaco em que com a intervenção do homem foi feito um cruzamento entre uma Loba da Cordilheira dos Cárpatos e um Pastor Alemão em 1955 dando assim origem ao Lobo Checoslovaco (A). Outro exemplo é o cruzamento que foi feito entre uma Loba Russa e um Pastor Alemão que deu origem ao Cão Lobo de Saarloos (B).

No entanto é curioso de constatar que o aspeto exterior das raças não respeita a quase insignificante proximidade genética, sendo por exemplo que do ponto de vista genético, a raça de cão mais próxima do lobo é o Pequinês e as raças como o Pastor Alemão e os Border Collies as mais distantes.

Física:

A domesticação do cão originou diferentes modificações. Como em todos os animais domésticos, o cérebro diminuiu em cerca de um terço do volume em relação ao cérebro do lobo o que pode indicar uma maior inteligência por parte do lobo de forma a fazer face aos desafios do dia-a-dia para sobreviver e arranjar alimento no meio selvagem. Outra modificação física visível é ao nível das patas que normalmente no lobo são mais altas e o corpo mais esguio. Este facto permite ao lobo ser mais rápido e por consequência ter uma maior vantagem na hora de caçar. O cão doméstico como não tem necessidade de caçar para sobreviver acabou por não se desenvolver fisicamente da mesma forma.

Comportamento:

Os lobos vivem em matilha e desenvolvem relações sociais complexas que se explicam pela organização precisa e necessária do momento da caçada por exemplo.

Na matilha um lobo ou um casal de lobos (pai lobo e mãe lobo) que ocupa a posição de líder, ou alfa como é comumente descrito, "domina" e determina todas as decisões do grupo relativamente à caça e aos deslocamentos de migração e ocupação de territórios. Além disso, apenas o casal alfa se reproduz, uma única vez por ano enquanto no cão doméstico as fêmeas podem-se reproduzir duas vezes por ano.

Relativamente à marcação de território, na matilha de lobos apenas o macho alfa tem o direito a proceder à marcação e delimitação do território enquanto no cão doméstico todos os cães apresentam esse comportamento. A única semelhança é que em ambos os casos os animais tem preferência em urinar em locais onde outros já o haviam feito.

Adicionalmente e tal como referido anteriormente, o lobo por natureza é um animal que evita o contacto com humanos enquanto o cão doméstico como o nome indica partilha os seus dias connosco.

Comunicação:

Os lobos apresentam uma panóplia de recursos de comunicação bastante diversificada e rica. Segundo vários investigadores é possível identificar cerca de 75 expressões de comunicação diferentes enquanto no cão doméstico essas expressões baixam para entre 14 e 16 (o Malamute é uma exceção e apresenta cerca de 43). Note-se por exemplo que um cão que apresente as orelhas descaídas ou penduradas e a cauda curta apresenta obrigatoriamente menos expressividade.

É também importante perceber que os cães domésticos reduziram o número de expressões porque vivem confortáveis e muitos dos sinais úteis para viver em matilha e no mundo selvagem foram desaparecendo e adaptando-se para a sua convivência com os humanos.

Vejamos o caso das vocalizações. Dizemos que os cães ladram enquanto os lobos uivam. Esse comportamento é normal no lobo uma vez que este por vezes necessita de comunicar a grandes distâncias. Por sua vez, o cão comunica essencialmente a curtas distâncias e por isso o seu uívo acabou por se transformar em ladrar. Não obstante, existem algumas raças onde é possível observar uívos como por exemplo os Huskis.

Fonte da imagem: www.tes.com/

Alguns comportamentos selvagens observados nos nossos cães domésticos:

Embora exista uma grande diferença de sinais entre o cão e o lobo no entanto ainda é possível observar diversos comportamentos selvagens nos nossos amigos de quatro patas, ora vejamos alguns:

  • Andar às voltas na sua cama antes de se deitar - acredita-se que este comportamento servia para aquecer o solo e molda-lo a uma forma confortável para que o seu antepassado ancestral se deita-se.
  • Raspar o solo antes de se deitar - muitos lobos caçavam serpentes ou outros insetos que lhes poderiam causar alguma ameaça quando estes se encontrassem a dormir. Por esse motivo os lobos raspavam o solo antes de se deitar o que lhes permitia verificar que não existia nada de perigoso antes da sua cesta.
  • Esconder comida ou comer num lugar diferente de onde está a ração - os lobos tinham a tendência a comer num local diferente de onde estava a sua presa morta de forma a proteger a sua peça de caça de eventuais oportunistas, ou seja levavam partes da refeição para um local afastado e ai comiam. Quem nunca observou o seu cão a tentar esconder um osso ou um pedaço de comida no quintal? Também o facto de esconderem comida tem a ver com o facto de quererem proteger a caça de eventuais furtos.
  • Esfregarem-se em coisas malcheirosas - este comportamento é bastante interessante e deve-se à necessidade de camuflagem do lobo para se proteger de eventuais predadores. Assim, o lobo ao encontrar algo com um cheiro forte rolava-se e impregnava-se nesse cheiro de forma a se camuflar. Esse comportamento é visível ainda em alguns dos nossos amigos de quatro patas.

Os perigos da seleção artificial feita pelo homem.

O homem tem tendência a mudar a natureza que o rodeia e infelizmente, relativamente ao cão isso não é diferente. É possível ver em várias raças a intervenção do homem, no entanto estas modificações podem, ao contrário do que é desejável, não apurar uma determinada característica boa mas sim mudar de tal forma o cão que isso possa vir a ser prejudicial para a sua saúde.

Estes casos são visíveis por exemplo em raças como o Pastor Alemão com a sua traseira cada vez mais rebaixada, no Pequinês ou no Bulldog Francês com o seu focinho cada vez mais curto e que pode causar problemas respiratórios e uma incapacidade para lidar com o calor ou com grandes esforços físicos.

A figura abaixo mostra algumas das alterações de que estamos a falar.

Comparação:

A - Boxer que apresenta um focinho mais curto e uma traseira mais baixa.

B - Bulldog Inglês que apresenta um peito mais largo, patas mais curtas e mais dobras no pêlo.

C - Pastor Alemão que apresenta um peito mais largo, uma traseira mais baixa e mais pêlo.

D - Teckle que apresenta um corpo mais longo e patas traseiras mais curtas.

E - Bull Terrier que apresenta patas mais curtas com um focinho diferente e uma mandibula maior.

F - Doberman que apresenta um temperamento mais calmo e é mais pequeno.

Para combater estes problemas a sociedade central canina (SCC) proibiu o cruzamento de animais com um certo grau de consanguinidade (pai/filha; mãe/filho; irmão/irmã) desde 1/10/2017. Adicionalmente cada criador deverá fazer testes genéticos de despistagem de doenças obrigatórios e ainda coloca-los online para que todos tenham acesso e possam observar os riscos de saúde quando adquirem um cão desse criador.

Também nas competições de beleza (Crufts por exemplo) todos os juízes devem verificar que todos os participantes são capazes de respirar, locomover-se e não apresentar características demasiadamente exageradas de forma a serem penalizados por isso.

NOTA:

Como em qualquer área da ciência novas descobertas dão origem a novas teorias e aquilo que actualmente se acredita ser verdade mais tarde pode ser refutado e alterado. Nesse sentido este artigo pretende apenas divulgar a teoria vigente nos dias de hoje no que à evolução das raças/espécies diz respeito.

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