Compreenda os medos e  as fobias do seu cão.

18/01/2020


O tratamento de medos e de fobias é um dos problemas mais frequentes com que se deparam os comportamentalistas caninos.

Embora muitas vezes se pense que ambos os conceitos significam a mesma coisa, a verdade é que segundo a psicologia não o são. Então é importante em primeiro lugar fazer a distinção entre ambos.

Segundo o dicionário Priberam a definição para medo é: "estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça, reais, hipotéticos ou imaginários; ausência de coragem; preocupação com determinado facto ou com determinada possibilidade". Já a definição de fobia é: "receio patológico persistente; medo exagerado ou grande aversão".

Adicionalmente é necessário perceber que o medo, quando controlado, é algo necessário como mecanismo de defesa que nos protege de coisas ou situações que nos poderiam magoar de alguma forma. Por outro lado, o medo desmedido ou uma fobia, podem precisamente levar o cão de encontro ao perigo.

Os cães demonstram o seu medo através dos diferentes sinais de calma ou apaziguamento ( artigo em: https://www.abibliotecadocao.com/l/este-e-um-blog-com-imagens3/ ou em vídeo em: https://www.youtube.com/watch?v=0siH9j7fK-M).

No mundo canino estes sinais funcionam como forma de mostrar a outro cão que eles estão desconfortáveis com a situação e que não representam nenhum perigo, mas também como meio de "descompressão" e por isso são muito observados quando o cão se encontra com medo de algo.

Mas se quando o cão está com medo/apreensão relativamente a algo ou alguém este ainda consegue ativar estes comportamentos como tentativa de se descomprimir, quando o cão se encontra num estado de fobia existe um "shut down" e normalmente o cão apenas procura um meio de fuga do estímulo aversivo e pode apresentar os seguintes sinais: caminhar descontrolado (correr sem destino, fugir, esconder-se), comportamentos obsessivos compulsivos (correr atras da cauda, lamber as patas), comportamentos destrutivos, defecar/urinar/vómitos, tremores, vocalizações exageradas, mordida e nos casos mais graves até mesmo "desamparo aprendido" (permanecer imóvel, deixando de ter controle sobre as suas ações).

Ou seja, e voltando um pouco atrás, a fobia é uma resposta intensa e muitas vezes irracional a um medo perante um qualquer estímulo. O medo e a fobia pode afetar qualquer raça e qualquer cão independentemente da sua idade. No entanto podem existir alguns cães mais propensos a apresentar este tipo de resposta que outros devido a um processo de criação descuidado/defeituoso, crias de fêmeas que já apresentam medos e fobias, ou como resultado de experiencias anteriores negativas.

Alguns tipos mais frequentes de fobias

De forma a enquadrar melhor os diferentes tipos de fobias neste artigo propomos a seguinte classificação mediante três categorias:

  • Fobia perante estímulos auditivos;
  • Fobia perante estímulos ambientais;
  • Fobia perante o desconhecido.

Fobia perante estímulos auditivos

As fobias perante estímulos auditivos, como o nome indica, estão relacionadas com estímulos sonoros. Normalmente sons fortes, conhecidos ou desconhecido. Nesta categoria podemos integrar por exemplo:

  • Trovões

Para além do som do trovão, que pode ser bastante forte, os trovões vem acompanhados de diferenças de pressão que são percetíveis pelo cão. Por isso, se diz que o cão consegue prever tempestades. Então essas diferenças de pressão sentidas pelo cão por si só muitas vezes são suficientes para iniciar o cão num estado de ansiedade e stress. Outro especto associado aos trovões e às tempestades em geral é a eletricidade estática que pode ser sentida pelo cão através dos seus pêlos. Estudos recentes afirmam que em alguns casos o cão até experiencia pequenas descargas de eletricidade estática (choques) aquando de uma tempestade.

  • Fogos-de-artifício

Os fogos-de-artificio, tal como os trovões, produzem sons bastante fortes e que são o principal motivo de despoletar medo e fobia no cão. Contudo, não é só com o som que temos que nos preocupar. Os fogos-de-artifício são acompanhados por vários efeitos visuais bastante impressionantes para os humanos, mas que para os cães pode ser algo aterrador. Adicionalmente, os odores a pólvora podem também ser facilmente percetíveis pelo cão.

  • Sirenes

Sirenes de bombeiros, policia, ambulância são sons bastante fortes e que podem facilmente amedrontar um cão devido à sua intensidade. Além disso, as sirenes são muitas vezes acompanhadas por movimentos a grande velocidade que não são facilmente compreendidos pelo cão.

  • Sons de crianças

Nesta subcategoria podemos integrar os sons de crianças brincando, gritando, bebes chorando.

  • Aspirador e secadores de cabelos

Estes equipamentos ou outros equipamentos domésticos do mesmo género que produzam ruídos fortes e prolongados podem representar um estimulo que pode desenvolver uma fobia.

Fobia perante estímulos ambientais

Na categoria das fobias perante estímulos ambientais podemos integrar tudo o que seja situação nova para o cão como por exemplo:

  • Andar de carro

O ruido durante o movimento do carro pode causar algum desconforte, no entanto a esse movimento está também associado uma certa instabilidade e consequente enjoo.

Para evitar esse problema pode evitar de dar de comer ao cão algumas horas antes de uma grande viagem e também arranjar um sitio no carro onde o cão vá com uma certa restrição de movimentos (como uma crate por exemplo) e assim evitar que enjoe facilmente.

  • Ida ao veterinário

Os odores, sons, exame na mesa e pessoa desconhecida são alguns dos diferentes factores que podem levar o cão a desenvolver um processo de medo ou de fobia durante a ida ao veterinário. O que é aconselhado neste caso é fazer algumas visitas ao veterinário apenas para ir integrando progressivamente o cão dentro desse ambiente e perante esses estímulos, sem que nenhum cuidado veterinário seja prestado, o que gosto de chamar de "visita de reconhecimento".

  • Banhos e tosquias

Lojas de "cãobeleireiro" tem muitos estímulos apresentados todos de uma vez. Começa pela manipulação do cão por parte de uma pessoa estranha, depois a utilização de diversos equipamentos que tocam o cão ao mesmo tempo que produzem sons estranhos.

  • Escadas

Normalmente o medo e a fobia a escadas estão relacionados com experiencia traumáticas vividas anteriormente. Por exemplo um cão que tenha caído pelas escadas. Contudo, cães de idade mais avançada ou com problemas articulares podem também desenvolver este tipo de medo e fobia devido à dor que sentem de cada vez que tentam subir os degraus.

  • Estar sozinho

Os cães são animais gregários, então estar muito tempo longe da sua família humana não é algo que lhes agrade particularmente. Nestes casos, o medo de ficarem sozinhos pode acabar por desenvolver ansiedade por separação.

Fobia perante desconhecidos

Este tipo de fobias está relacionado com novas interações, quer sejam com animais (da mesma ou de outra espécie), humanos e objetos. Nesta categoria podemos integrar os seguintes exemplos:

  • Pessoas

A falta de sociabilização durante a idade de cachorro, nos seus primeiros meses de vida, com pessoas levam muitas vezes a desenvolver este tipo de fobias. Normalmente pessoas com vozes grossas, barba ou pessoas muito perfumadas tendem a desencadear um processo de medo no cão.

  • Outros cães

Neste caso, o principal motivo muitas vezes está relacionado com a separação da progenitora e dos irmãos demasiado cedo.

  • Objetos estranhos

Todo o tipo de objetos estranhos, aspirador, caixas grandes, vassouras, peluches, objetos que façam barulhos esquisitos, guarda-chuvas, balões, robots, secadores.

Mas e então devemos ou não confortar um cão com medo ou fobia?

Esta é uma pergunta bastante controversa e onde existe um dos maiores mitos sobre o comportamento canino. Existem os defensores que afirmam que não se devem fazer festar nem tentar acalmar/reconfortar o seu cão quando este está com medo de algo ou estará a reforçar o seu medo. Do outro lado estão os defensores do sim, devemos reconfortar o nosso cão sempre que este esteja com medo. Mas então vejamos o que diz a ciência.

O Dr. Jaak Pankseep, um dos mais conceituados neurocientistas do mundo afirma que os animais, e neste caso os cães tem sete emoções primárias: "Seeking", "Rage", "Fear", "Panic/Loss", "Play", "Mating", "Care".

  • Seeking ou procura: está ligado ao processo de antecipação de algo que ainda não aconteceu ou a um desejo como por exemplo perseguir, caçar, correr.
  • Rage ou raiva: está ligado à frustração, indignação ou restrição de uma actividade que lhe proporciona bastante prazer mas que não consegue obter;
  • Fear ou medo: está ligado ao medo, ameaças;
  • Panic/Loss ou pânico: está ligado a separação do grupo, stress, aflição;
  • Play ou jogo: está ligado à brincadeira, à alegria;
  • Mating ou procriação: está ligado à procura de parceiros, copulação;
  • Care ou cuidado com terceiros: está ligado aos cuidados prestados à sua prole.

Ora segundo esta definição, o medo é uma emoção. A única coisa que podemos reforçar são os comportamentos, como por exemplo quando falamos de comportamento operante. Assim sendo, e seguindo este raciocínio lógico o medo ser uma emoção e não um comportamento nunca pode sair reforçado.

Por esse motivo, a resposta à pergunta anterior é simples: SIM DEVEMOS RECONFORTAR O CÃO QUANDO ESTE ESTÁ COM MEDO. Devemos tentar proporcionar-lhe conforto e segurança para que consigam ultrapassar o medo e para que não se sintam desamparados. Nesta altura é importante também que mantenha a calma, utilizando uma voz tranquila e natural enquanto o reconforta.

Vejam o vídeo da treinadora Emily Larlham abaixo:

Ao reconfortarmos o cão, para além de o ajudarmos a que se sinta mais seguro estamos estreitando laços e aumentando a confiança dele em nós. Durante este processo de reconforto é libertado um maior fluxo de oxitocinas e prolactinas induzindo a um relaxamento e calma mais rápidos.

Como tratar um caso de um cão medroso ou com fobia a algo?

Se no caso dos humanos, as fobias mesmo que explicadas, podem desencadear respostas irracionais e serem difíceis de tratar, no caso dos cães é bem mais difícil explicar-lhes que um determinado estimulo não lhes representa qualquer tipo de ameaça e por isso é tão difícil de resolver este problema.

Em primeiro lugar é importante referir que o tratamento de fobias é um processo muito demorado, onde é necessário ter bastante paciência e persistência e que deve ser sempre acompanhado por um profissional, tendo em mente que uma fobia tem tendência para piorar com o tempo e nunca se resolvem por elas mesmo. Um mau acompanhamento deste problema apenas o agravará.

O processo de tratamento da uma fobia passa muitas vezes por um processo de dessensibilização ao estímulo aversivo, ou seja uma modificação comportamental, no entanto existem também outras técnicas que podem ajudar e que podem ser complementares durante o processo de modificação comportamental.

Processo de modificação comportamental

O processo de modificação comportamental no caso do medo e da fobia é algo que visa criar uma alteração do comportamento e da perceção do cão perante um determinado estimulo.

Neste processo existem diferente técnicas, no entanto aquela que se tem mostrado mais eficaz é conhecida por "Método do limite (ou threshold)". Este método baseia-se na dessensibilização gradual e progressiva, ao ritmo do cão e respeitando sempre o sentimento do cão para com estímulo apresentado.

O método do limite é composto por três estágios:

Abaixo do limite: o cão não mostra nenhum sinal de medo, de desconforto e de ansiedade para com o estímulo apresentado.

No limite: é o ponto onde o cão passa de não mostrar qualquer sinal de medo, desconforto ou ansiedade para mostrar algum sentido de alerta para com o estímulo apresentado.

Acima do limite: o cão mostra sinais significativos de medo e ansiedade em relação ao estímulo apresentado.

Respeitando estes três estágios, o tutor deve gerir o estímulo aversivo e o ambiente ao redor para que o cão se encontre o mais possível abaixo do limite que desencadeia uma resposta fóbica.

Por vezes para se conseguir realizar um processo de modificação comportamental é necessário recorrer a medicamentos. Por esse motivo, é aconselhado em primeiro lugar fazer um despiste com o vosso veterinário habitual e assegurar que não existe nenhum tipo de problema de saúde que esteja por detrás da fobia.

Outras técnicas ou ferramentas que podem ajudar

Está provado que a musica é uma ferramenta muito útil no processo de apaziguamento quer de humanos quer de animais. Nesse sentido a utilização de musica clássica ou bioacústica em veterinários, canis e abrigos, day-care, ATL's caninos ou quando o cão tem que ficar sozinho em casa por longos períodos de tempo pode ser uma boa ajuda.

Outra ferramenta que embora não esteja 100% confirmado o seu benefício, é a utilização de feromonas sintéticas que imitam as feromonas maternas durante a amamentação e que tem um efeito calmante no cão. Existem algumas soluções no mercado como por exemplo a "Adaptil",

Tal como as feromonas, outra ferramenta que pode ser utilizada neste processo é a aroma terapia. São conhecidas as propriedades calmantes de plantas como a lavanda ou camomila e que podem, por esse mesmo motivo ser utilizados no processo de modificação comportamental.

O enriquecimento ambiental como forma de diminuir os níveis de stress e ansiedade são uma ferramenta bastante útil. O enriquecimento ambiental permite manter a mente do cão ocupada e estimulada e dessa forma estar menos propenso a desenvolver medos e fobias.

Adicionalmente, massagens de relaxamento diárias, a boa alimentação e nutrição, equipamentos como a "Thundershirts" ou até mesmo os treinos de obediência básica podem ser ferramentas uteis durante o processo de modificação comportamental.

O que acontece fisiologicamente quando o cão está com medo?

Sempre que o cão está com medo o seu corpo desencadeia um conjunto de medidas que o preparam para reagir perante o estímulo aversivo (fuga ou luta). O cérebro torna-se híper-alerta, as pupilas ficam dilatadas, os brônquios aumentam de volume, a respiração acelera, o ritmo cardíaco e a pressão sanguínea aumentam.

O sistema nervoso simpático é ativado e o eixo endócrino hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), responsável pela resposta a estímulos exteriores e interiores, começa a libertar uma maior quantidade de hormonas de stress (epinefrina/adrenalina) que vão influenciar por exemplo o sistema respiratório, sistema circulatório, sistema digestivo, recetores de dor, entre outros.

O objectivo desta resposta fisiológica é preparar o cão para agir, tendo uma maior quantidade de energia disponível e então, todos os sistemas e funções secundárias são colocadas em "standby".

Adicionalmente a amígdala (produz a corticotrofina), responsável por acionar uma resposta e o hipocampo, responsável por armazenar as memórias e enviar mensagens à amígdala para que esta reaja entram em ação.

Problemas de saúde relacionados com o medo e a fobia

A ativação do sistema nervoso simpático em permanência e o bloqueio do sistema nervoso parassimpático faz com que o cão esteja constantemente sob stress e em tensão.

Aumento das hormonas do stress (como por exemplo os corticosteroids) e podem ter um efeito negativo no sistema imunológico. E um sistema imunológico afetado pode deixar o corpo mais suscetível de ter doenças infeciosas.

Quando o stress e medo são contínuos todos os sistemas do corpo podem ser afetados, o cardiovascular, metabólico, reprodutivo, gastrointestinal, imunológico. Os resultados podem incluir miopatia, fadiga, hipertensão, problemas gastrointestinais, supressão da função imunológica, aumenta as contrações intestinais, aumenta a permeabilidade intestinal e consequentemente reduz a absorção de agua no intestino, interrompe a absorção normal de electrolitos e aumenta a resposta inflamatória do colon entre outros.

Também a nível cognitivo o medo constante pode ter algum impacto. Quando o cão é exposto a repetidos eventos traumáticos, elevados níveis de glicocorticóides são libertados o que pode resultar em danos em algumas áreas do hipocampus o que vai ter como resultado problemas de aprendizagem de novas experiencias.

A Drª Nancy Dreschel do Department of Dairy and Animal Science da Pennsylvania State University resume bastante bem os efeitos nefastos do medo ou fobia crónicos afirmando que o stress causado pelo medo reduz a esperança média de vida nos cães.

Agradecimento especial

Gostariamos de agradecer ao Patrick Rocha pela sua colaboração na elaboração deste artigo. Não deixem de seguir o seu trabalho em:

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